Em um mundo onde as pessoas levam anos para criar laços, ter apenas quatro meses para uma mãe permanecer com seu próprio filho soa angustiante. Em entrevista ao CTAv, Cláudia Priscilla, a diretora de “Leite e Ferro”, vencedora do Prêmio Femina na categoria Competição Internacional, fala um pouco sobre sua vida, obra e opiniões.

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>>Primeiro gostaria que você se apresentasse e contasse um pouco da sua trajetória profissional:

Cláudia Priscilla>>Sou formada em Jornalismo, mas trabalho com cinema há 10 anos. Como diretora comecei com dois curtas “Sexo e Claustro” e “Phedra” que também tratam do universo feminino.

>> “Leite e ferro” é um filme que fala sobre as dificuldades vividas por presas em um Centro de Amamentação Carcerário. O que a motivou a fazer um documentário sobre esse tema?

Cláudia Priscilla>> A idéia de fazer este filme veio depois que passei pela experiência da maternidade. Tive curiosidade de saber como este momento é vivido dentro dos limites físicos e psicológicos impostos numa instituição carcerária. Entender mais a maternagem, depositar meu olhar em histórias completamente diferentes da minha.

>>Como foi a experiência de estar em contato com a realidade dessas detentas durante esses dois meses de filmagem?

Cláudia Priscilla>> Foi difícil. Me senti muito culpada por pentencer a um universo distinto do delas. Só o fato de estar livre já me colocava em uma situação muito melhor. Tive que trabalhar isso durante o processo.

>>Você, como militante dos direitos humanos, concebe esse documentário que vem ser, além de obra de valor artístico, o porta-voz de uma questão social. Quando o seu filme recebe uma vitória ou menção, como você a encara, o que ela representa para você?

Cláudia Priscilla>> Não tenho a pretensão de ser porta-voz, meu desejo é levantar questões relevantes aos direitos das mulheres. Infelizmente ainda é necessário falar disso no Brasil, ainda há muito a ser feito em relação aos direitos humanos. Claro que é uma delícia ser premiada, me dá a certeza que tem outras pessoas que se preocupam e se sensibilizam com meu trabalho.

>> Foi feita uma pesquisa prévia sobre o tema?

Cláudia Priscilla>> Num primeiro momento me dediquei a bibliografia relacionada ao tema… mas foi com elas, no cotidiano da instituição que aprendi muita coisa.

>>O filme deixa claro que aquela não é a imagem doCAHMP, mas das pessoas que foram registradas lá naquele momento. Nesse recorte, você contou como protagonistas as próprias detentas, mães que cativaram o público com a revelação da sua intimidade, o que inclusive levou o filme ao prêmio Femina de Melhor Destaque Feminino. Poderia nos contar um pouco sobre essas mulheres em particular?

Cláudia Priscilla>> Admiro muito as mulheres que estão no filme. A protagonista já vivenciou duas vezes a maternidade no cárcere. Não coloquei no filme o por que delas estarem presas, o que importa é a situação limite que vivenciaram com seus filhos. Cada uma delas tem uma história de vida ímpar e isso é encantador.

>>Algo que fica muito claro no filme é como as personagens ficam à vontade para contar suas histórias, por mais chocantes que sejam.Como se deu essa sintonia com as mães para que houvesse tanto conforto em se expor frente à câmera?

Cláudia Priscilla>> Fiquei dois meses com elas sem ligar a câmera, acho que isso possibilitou uma relação mais íntima. Outro ponto importante foi a utilização das “rodas de conversa”, onde eu sugeria um tema e elas falavam livremente sobre ele.

>> Você tem outros dois filmes “Sexo e Claustro” e “Phedra”, pode nos falar mais sobre eles?

Cláudia Priscilla>> Esses dois curtas também retratam mulheres especiais… Sexo e claustro é sobre Maria Del Pillar, uma ex freira lébica e Phedra é uma transexual cubana que vive em São Paulo. São dois presentes na minha vida.

>>Quais são seus projetos futuros?

Cláudia Priscilla>> Meu próximo longa “Olhe Pra Mim de Novo” estreia na próxima semana no Festival de Gramado. Fiz este filme com o Kiko Goifma que é meu marido, trabalhamos juntos há bastante tempo, mas é a nossa primeira direção conjunta.