Danilo Godoy se formou no curso de Bacharelado em Audiovisual do Centro Universitário SENAC em 2011. Em 2005, antes de ingressar no curso, foi roteirista e diretor do micro-metragem O Pequeno All, vencedor da categoria Júri Popular, do Festival do Minuto. Em 2009, roteirizou e dirigiu O som de Berlim, selecionado para a mostra Querida, teletransportamos o muro, do 20º Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo.

Durante sua vida acadêmica, trabalhou em diversos projetos como diretor e roteirista, além de elaborar duas pesquisas de Iniciação Científica. Em 2009, realizou o curta-metragem de ficção Repensando Clara, exibido em diversos festivais, tais como 17º Gramado Cine Vídeo, Festival de Curta Metragem de Cabo Frio 2009, 6º Mostra Curtas Rio de Janeiro, 5º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual, entre outros. Em 2010, dirigiu e colaborou com o roteiro de quatro episódios do programa humorístico de TV JornalDiovisual. Ainda no mesmo ano, realizou o curta-metragem documental R-33, como roteirista e diretor.

Em 2011 estagiou na área de assistência de direção na produtora Killers Filmes. Recentemente, realizou seu primeiro trabalho como 1º assistente de direção na Killers Filmes, para um filme publicitário da Fiat México, que será apresentado em Cannes. Acaba de finalizar seu Trabalho de Conclusão de Curso, Resquícios, um curta-metragem de ficção que pretende estrear este ano, além de estar em processo de desenvolvimento de um novo projeto de curta-metragem.

Resquícios foi contemplado pela comissão de seleção do CTAv com o serviço de mixagem, através de inscrição no site.

Sinopse do filme: Após um acidente, o peso do passado toma conta de Theo (Guilherme Gorski), impossibilitando-o de seguir em frente. Sozinho em sua casa, vive uma rotina afastado do trabalho, longe de familiares e amigos. Theo vive apenas com suas lembranças e uma porta que permanece trancada. Sua casa está impregnada de sensações e memórias da vida que tinha com Júlia (Cláudia Braga). Não conseguindo evitá-las, o passado invade cada vez mais a vida de Theo, forçando-o a enxergar ao seu redor.

Como surgiu a ideia inicial para a realização do filme?

“Resquícios” começou na verdade a partir de um grupo de 7 amigos que queriam realizar juntos um curta-metragem de ficção como trabalho de conclusão de curso.

No começo de dezembro de 2010, este grupo começou a se reunir para discutir ideias e temas, mas ainda estávamos muito longe do que “Resquícios” é hoje. Os personagens Theo e Júlia surgiram antes do enredo propriamente dito. A premissa que tínhamos para o desenvolvimento do roteiro era: “a história de um casal a partir do ponto de vista de um deles”. Queríamos desenvolver uma relação de conflito, onde um segredo entre os dois faria com que o personagem Theo passasse por uma trajetória de auto-reflexão.

Estas ideias ainda estavam muito vagas e abrangentes. Não tínhamos uma história para contar. No final de dezembro assisti ao filme “O Casamento de Rachel”, dirigido por Jonathan Demme, e fiquei muito inspirado, não apenas pelo roteiro, mas pelo processo de criação que a equipe deste filme utilizou. O filme foi rodado praticamente em uma locação só, uma casa que foi como um laboratório para os atores desenvolverem seus personagens, ao mesmo tempo em que se criou um ambiente seguro para a equipe explorar diversas possibilidades estéticas. Fiquei com vontade de mostrar o filme e o making of para a equipe para ilustrar um pouco como gostaria de trabalhar colaborativamente entre todas as áreas, já que este seria nosso trabalho de conclusão de curso. O filme possui uma questão muito forte e ao mesmo tempo oculta a respeito de um filho que morreu num acidente de carro, e como este acontecimento afeta a vida de todos os personagens. É um filme que vale a pena ser visto, então não vou me alongar desvendando sua narrativa.

Antes de assistirmos ao filme escrevi algumas ideias, de maneira livre na forma de um roteiro cinematográfico, e neste rascunho elaborei a ideia de nosso personagem Theo viver diante de ilusões, misturadas com sua realidade que no final revelavam sua dor e culpa por ter deixado seu filho pequeno se afogar na banheira. As ideias que escrevi estavam muito ligadas ao inconsciente deste personagem, sua relação com o acidente em si e como a água lhe afetava de diversas formas.

Quando nos reunimos para ver “O Casamento de Rachel” e discutir a respeito da história de um  casal que perde um filho, muitas dúvidas e inseguranças surgiram. Como iríamos abordar este tema? Temos propriedade para falar a respeito disso? Era um tema extremamente delicado, mas o grupo encontrou justamente nessa história a força que todas as outras não tinham. Essa história tinha que ser contada e nela havia um drama a ser explorado. E o mais importante foi que encontramos uma história que todos da equipe queriam contar.

Dentre tantas reviravoltas, o projeto, que começou como “Theo e Júlia”, sobre um casal em conflito a respeito de um segredo que um esconde do outro, se tornou “Resquícios”, sobre o processo de luto e culpa de um pai.

O filme foi, de alguma forma, inspirado na sua própria experiência de vida?

Não sou pai, não sei o que é ter um filho, nem ao menos o que seria perder um filho. Já perdi pessoas importantes, familiares, porém nunca me aconteceu algo que se assemelhe à perda de Theo.

É difícil criar sem que sua obra tenha um pedaço de você. É aquilo que não pensamos conscientemente “já vivi tal coisa, então irei retratá-la”. Mas acontece, nos inspiramos em nossas vidas, no caso de “Resquícios” só fui perceber de fato tudo que ele representava em mim assim que o filme tomou devidamente sua forma com imagem e som, e percebi, “nossa, eu sou um pouco Theo”.

Mas são mais detalhes de comportamento do que de fato a história, pois esta não foi baseada em nada de experiência própria, alias essa era uma preocupação muito forte que eu tinha. Queria saber e conversar com pais que haviam sofrido essa perda para entender até os motivos do porquê eu queria contar aquela história.

Como foi o processo de financiamento do projeto?

Inscrevemos no começo de 2011 nosso projeto no ProAc, porém não encontramos nenhuma empresa interessada nesta produção universitária. Descobrimos um site chamado vakinha.com, onde é possível criar uma conta e receber virtualmente contribuições que caem em uma conta corrente. Além desta possibilidade, cada integrante do grupo arcou com uma certa quantia própria de recursos.

Por se tratar de um curta universitário, tivemos desconto em equipamentos da Quanta, além de utilizarmos, em grande parte, equipamentos disponíveis no Centro Universitário SENAC, além de apoios relacionados a alimentação, como a Illy café.

O financiamento contou muito com estes apoios desde a pré até a pós, onde fomos selecionados pelo CTAv para realizar a etapa de mixagem de som.

O diretor Danilo Godoy, com o mixador Alexandre Jardim e o produtor Ricardo De Caroli no estúdio do CTAv

Você pretende inscrever o filme em festivais? Qual a importância dos festivais de cinema para a projeção dos curta-metragens?

Pretendo, sim, inscrever “Resquícios” em festivais nacionais e internacionais. Acredito que festivais como o Festival de Curtas-Metragens de São Paulo, o Festival de Brasília, Tiradentes, Rio de Janeiro, entre outros, são fundamentais para o diálogo entre cineastas e teóricos a respeito do que está sendo desenvolvido neste campo da linguagem.

O Brasil possui festivais de curtas-metragens extremamente dedicados a difundir novos diretores e a trazer a possibilidade de lançamento para festivais fora do país. Os festivais são a melhor maneira de manter a vida de um curta-metragem, já que não existe circuito comercial para essa plataforma. Os festivais nutrem este nicho através de prêmios, ampla visualização e divulgação de obras que precisam de um espaço, obras que precisam ser vistas para completarem sua trajetória.

Como o serviço de Mixagem do CTAv influencia a carreira do seu filme e os seus projetos futuros?

“Resquícios” é um curta-metragem de conclusão de curso que desde o principio teve uma atenção muito especial em relação ao som. Nosso filme tinha, como concepção sonora, muitos detalhes que precisavam existir além da imagem. O serviço de mixagem do CTAv trouxe a possibilidade do 5.1, que completou o projeto sonoro de nosso filme de maneira riquíssima. Exibi-lo agora em salas de cinema que possuem sistema de som 5.1 será de extrema relevância, já que nossa história conta muito mais sobre o não dito do que o dito. “Resquícios” tem pouquíssimas falas, e até falas que não importam ou que não são ouvidas claramente. O silêncio também é sonoro e o impacto que a mixagem em 5.1 faz quando a sala se torna silenciosa é importantíssimo para a imersão do espectador no drama de Theo.

Fiquei muito contente com o serviço de mixagem do CTAv e espero vir com novos projetos para o Rio de Janeiro. É uma oportunidade única e tenho certeza de que outros diretores, editores de som e sound designers tenham sentido isso.

Como você vê os processos de distribuição e exibição do filme brasileiro?

Acredito que estes sejam atualmente dois dos grandes problemas do cinema brasileiro.  Muitos filmes são feitos, muitos filmes demoram anos para ficarem prontos e quando chegam às salas de cinema não têm público e saem de cartaz em poucas semanas.

O que existe de pensamento de distribuição para filmes brasileiros não contempla o próprio público em geral, que vê “filme brasileiro” como se fosse um gênero. Acredito que soluções criativas como a que fizeram com o filme “Reflexões de um Liquidificador” em São Paulo, onde intérpretes de stand-up comedy se apresentavam antes da exibição do filme, forma um grupo de curiosos. Porém, o problema é um ciclo sem fim, poucas pessoas querem ver filme brasileiro, logo poucos filmes brasileiros passam no circuito comercial, logo a distribuição fica comprometida e assim por diante.

O espaço para o filme brasileiro deveria ser obrigatório, já que a maioria é produzido com recursos de editais do governo. Na teoria, todo cidadão brasileiro deveria ter o direito de assistir a filmes brasileiros, e tem. Porém, numa cidade como São Paulo, onde o ingresso pode chegar a custar mais de R$25,00, entre ir ao cinema e ver televisão em casa, o grande público ficará em casa. O cinema sai perdendo, principalmente o cinema brasileiro. É preciso investir na criação deste público, seja colocando mais filmes brasileiros na TV como tem acontecido, seja pelas promoções de ingressos mais econômicos. Enfim, se não tirarmos este estigma de que filme brasileiro é um gênero, cada vez mais estaremos sufocados por blockbusters americanos que arrebatam qualquer bilheteria.

Quais são os planos para o futuro do filme? Ele será lançado em DVD ou exibido na televisão?

Pretendemos iniciar o lançamento do filme em festivais, queremos primeiro que ele siga uma trajetória (não sabemos ainda como será sua recepção), para depois pensarmos em possibilidades televisivas, como no Canal Brasil, até as plataformas virtuais como o Porta Curtas. Mas queremos primeiro manter o foco em festivais.

O DVD com o filme finalizado e extras será produzido para membros da equipe e patrocinadores, além de cópias que serão enviadas para festivais.