Em 2019, voltamos com o Espaço do Especialista, coluna mensal do CTAv dedicada a entrevistar profissionais do segmento audiovisual, falando sobre as peculiaridades do ofício, o cenário atual e dicas para quem quer ingressar na carreira.

O primeiro entrevistado do ano é Pedro Riguetti, formado pela PUC Rio e mestre em Escrita Criativa de Roteiro Cinematográfico pela EICTV-Cuba. Atualmente, ele trabalha como roteirista da TV Globo, scriptdoctoring e professor de roteiro, ministrando inclusive o workshop de Conceitos Fundamentais de Roteiro, realizado em fevereiro no CTAv.

Pedro Riguetti, roteirista. Foto: Divulgação CTAv 2019.

>>> Pedro, como você começou a carreira de roteirista? Conte-nos sobre o seu primeiro roteiro produzido. 

Meu primeiro contato com roteiro foi na faculdade de Cinema na PUC-Rio, nove anos atrás. No meu primeiro período havia acabado de inaugurar o 1º Concurso de Roteiros da faculdade e eu decidi participar, mesmo sem saber nada sobre o assunto. Pesquisei na internet e busquei livros que poderiam me ensinar o mais rápido possível até o fim da inscrição. Escrevi um roteiro a partir de uma ideia antiga e consegui ganhar o concurso. O prêmio era apenas um troféu, mas aquele evento me deu ânimo para seguir nesse caminho e é onde estou até hoje. O curta está no Youtube e se chama “Acromático”.

>>> Poderia explicar aos leitores a diferença entre sinopse, argumento e roteiro?

A sinopse é um resumo da história em uma ou duas páginas, que contenha a trama principal, os personagens, o conflito dramático e um esboço da estrutura. Argumento é o desenvolvimento da história a partir da sinopse. É a história narrada em forma de prosa, geralmente entre cinco e dez páginas. Roteiro é a transposição do argumento para a linguagem cinematográfica. São palavras que evocam imagens e ações. É o filme ainda no campo da imaginação.

>>> Como é o seu processo de criação de um roteiro, da ideia até o último tratamento?

Varia muito de projeto a projeto, mas usualmente meu processo criativo segue os princípios do menor ao maior, começando com uma ideia e avançando nela pouco a pouco até chegar ao roteiro (storyline, personagens, sinopse, argumento, escaleta e roteiro). Dessa forma, caso descubra algo errado no meio do caminho, não preciso rescrever todo o roteiro para acertar, basta trabalhar apenas no material que eu estiver trabalhando no momento.

>>> Atualmente qual a sua visão do mercado de trabalho para os roteiristas?

Ainda está cedo para tirar conclusões com a mudança de governo, mas o mercado de trabalho para os roteiristas continua complexo. Por um lado, os roteiristas dizem que não há trabalho, por outros as produtoras e canais dizem que não há roteiristas no mercado. É uma conta que não fecha. Na minha visão, faltam bons roteiristas. Por isso acredito que a formação e a prática são a melhor maneira de se chegar lá. Ninguém irá contratar um roteirista de quem nunca ouviu falar ou que não possui material para mostrar.

>>> Como aconselha os iniciantes que querem ingressar nesse mercado? Como eles devem apresentar o seu roteiro e fazer para que este seja efetivamente avaliado?

Escrever roteiro dentro de casa é muito confortável, mas dificilmente vai nos levar para algum lugar. O que recomendo é que o roteirista aspirante embarque em ambientes onde possa conhecer outras pessoas que trabalham com audiovisual. Cursos, palestras, sets de filmagem, amigos de amigos, grupos de estudo, cineclubes, etc. O audiovisual é uma arte/indústria coletiva, é quase impossível fazer sozinho. Escreva seus roteiros e mostre para todas essas pessoas que conhecer, faça contatos, produza coletivamente. Sobre apresentar o primeiro roteiro, além das dicas básicas de mandar e-mail e ligar para produtoras, eu recomendo que o roteirista aspirante pegue seu roteiro e o filme. Junte uns amigos, pega uma câmera e tente produzir algo bacana. Crie portfólio. Inicialmente, escreva o que for possível de se realizar com todas aquelas pessoas do audiovisual que você conheceu, que querem chegar “lá” tanto quanto você. Do meu primeiro roteiro produzido até o meu primeiro emprego como roteirista foram 6 anos de estrada. Muitos curtas escritos, alguns produzidos, clipes, vídeo-aulas, institucionais, trabalhos como assistente de roteiro.

>>> Quais os maiores desafios no ofício de um roteirista? E que forma encontrou para contorná-los em sua experiência?

Lidar com o tempo do audiovisual. Como o roteirista é o primeiro soldado a entrar em campo, também é o que mais demora para ver seu trabalho na tela. Da ideia até a sala de cinema governos mudam, filhos nascem, Copas do Mundo vem e vão. Meu primeiro roteiro, desde a ideia, demorou três anos até ficar pronto. Um longa-metragem que escrevi em 2015 só vai estrear esse ano. E como fazemos quando precisamos mostrar nosso trabalho em uma entrevista de emprego se o que a gente produz pode demorar muito tempo para ficar pronto? O jeito é escrever e produzir muito que aos poucos o portfólio se torna apresentável. É preciso ter calma também. Muita calma.

Turma do workshop Conceitos fundamentais de roteiro, ministrado por Pedro Riguetti. Foto: Divulgação CTAv 2019.

>>> O que considera essencial em uma narrativa e o que deve ser evitado?

Que produza algum sentimento no público. O que deve ser evitado é subestimar o público ou superestimar a própria capacidade do roteirista.

>>> Como roteirista, você acompanha o processo de filmagem? Se envolve de alguma forma na produção?

Depende. Quanto mais pessoal o projeto, mais acompanho o processo de filmagem. Mas sempre evito estar no set de filmagem, aquele não é o lugar do roteirista. Não há nada que possamos fazer ali para agregar e geralmente o café é ruim.

>>> Como vê as atuais formas de incentivo à carreira existentes no país (prêmios à categoria em festivais, editais, leis)?

São essenciais. Graças às elas e aos bons resultados que a indústria brasileira audiovisual se desenvolveu e cresceu. A cultura dá identidade e proposta de futuro para o povo.

>>> Houve aumento de demanda de roteiros para séries com a Lei da TV Paga (Lei 12.485)? Quais as diferenças que devem ser consideradas na roteirização de uma obra seriada?

Sim, bastante. A obra seriada exige uma estrutura dramática diferente do cinema, que varia entre obras procedurais ou serializadas. É um assunto bem extenso, mas o principal é pensar se nossa ideia tem personagens interessantes e conteúdo suficiente para segurar, no mínimo, três temporadas.

>>> Houve uma valorização da categoria nos últimos anos? 

Certamente, graças ao trabalho de profissionais do ramo e associações como a ABRA.

>>> Qual a importância que o roteiro assume na construção de um filme ou série?

Para mim, o roteiro é a base de tudo. É a história. É a parte mais gostosa do processo criativo do audiovisual. Um bom roteiro e uma boa história dão espaço para todos os profissionais envolvidos na obra alcançarem o seu máximo potencial.

<<< Essa foi a entrevista com Pedro Riguetti, roteirista. Gostou e quer sugerir outra carreira para a coluna? Inscreva-se em nosso mailling e fale com com a gente!>>>

Assista aqui ao primeiro roteiro filmado de Pedro Riguetti:

“Acromático” (Pedro Riguetti, 2010)