No mês de abril, voltamos ao Espaço do Especialista, coluna mensal do CTAv dedicada a entrevistar profissionais do segmento audiovisual, trazendo o tópico produção televisiva. Quer conhecer mais sobre o assunto? Confira abaixo a entrevista completa!

Nosso convidado entrevistado é Adriano Espínola Filho, formado em Antropologia pela PUC-Rio e em Produção de Filme e Tv pela Futureworks School of Media, Manchester, Inglaterra. Adriano já trabalhou em diversos setores do audiovisual, como edição, direção de produção, assistência de direção, direção de fotografia e roteiro. Atualmente finalizou a série ficcional Pela Fechadura, com exibição prevista para 2019 no canal a cabo Prime Box. No CTAv, foi responsável por ministrar o workshop Produção para Televisão com baixo orçamento, tema desta coluna.

Adriano Espínola Filho, cineasta. Foto: Divulgação.

>>> Adriano, conte-nos um pouquinho sobre a sua trajetória profissional e fale sobre as características e os desafios mais marcantes que encontrou ao trabalhar com televisão?

Eu comecei no cinema, em 2012, como estagiário de produção em um longa metragem. Depois trabalhei como editor, roteirista e produtor em outras áreas do audiovisual. Fiz um pouco de tudo. Trabalhei com publicidade quando abri minha produtora, a DDK Digital, em 2013, mas nunca deixando de desenvolver meus próprios projetos. Fiz um curta metragem, chamado Berenice, em 2015, que ganhou dois festivais. Apostei na TV, porque a lei 12.485 – que obriga os canais a transmitirem conteúdo de produtoras independentes brasileiras –  ajudou a criar um mercado que praticamente não existia. Foi onde eu vi que teria mais oportunidades de emplacar projetos. Além disso, a TV tem se tornado um universo muito mais interessante do que era no passado. É um meio bastante heterogêneo onde, por um lado, você tem a TV aberta, que tem uma preocupação muito maior com abrangência de público e, por outro, você tem a TV fechada, onde cada canal tem um público mais bem definido. O desafio é você entender quais são os canais certos para o seu projeto e saber também como adequar o seu projeto para esses canais.

>>> E como foi o processo de tirar a ideia da série Pela fechadura do papel e transformá-la em realidade?

Criei a série em 2013, quando estava fazendo o curso de roteiro do José Carvalho, na Roteiraria. Na época, estavam abertas as inscrições para as rodadas de negócio do Rio Content Market (hoje Rio2C) e despretensiosamente inscrevi o projeto. Para minha surpresa o GNT e o Multishow se interessaram e foi marcada uma reunião. Lembro que fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo bem preocupado. Não tinha experiência com esse tipo de negociação. Como orçar, como apresentar o projeto, tudo era muito novo pra mim. Já que minha produtora não tinha muito currículo, decidi fazer um promo para ter algo a mais para mostrar, além um projeto no papel. Apesar de não ter negociado nada efetivamente, foi uma experiência importante para entender um pouco melhor como funcionava o mercado de TV. Dois anos depois consegui que o projeto fosse selecionado em um edital promovido pelo canal Prime Box. Com certeza o promo e toda a experiência acumulada nesses dois anos contribuíram para o aperfeiçoamento o projeto. 

>>> Nessa mesma série você acumula as funções de roteirista, diretor e diretor de fotografia. Como foi a formação do restante da equipe? Você buscou uma produtora (PJ) que deu esse suporte ou a formou através de networking?

Como eu já trabalhava no mercado há algum tempo, conhecia bastante gente do meio. O audiovisual é uma arte coletiva, então é fundamental escolher bem com quem se trabalha. Esses profissionais serão, em última análise, os responsáveis pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. Acho que essa é uma das questões mais sensíveis de todo o processo, porque grande parte da função de um diretor é saber lidar com pessoas. Eu tentei me cercar de pessoas que senti que poderia confiar e que tinham talento. Nem sempre você acerta, mas faz parte do aprendizado também. No meu caso, acho que o resultado foi muito positivo. 

>>> Já que você também é roteirista, vamos falar de estrutura dramática: no caso de séries, muito tem se falado acerca da importância de construir uma história que tenha conteúdo para segurar no mínimo três temporadas. Poderia explicar aos leitores o porquê disso?

Isso se dá principalmente por uma questão de mercado. Para o canal é muito mais vantajoso e menos arriscado investir em uma segunda temporada de uma série que fez sucesso, do que apostar em um primeira temporada de um projeto que não foi testado. Então, faz sentido que antes de investir em um novo projeto, o canal tenha a garantia que ele pode render múltiplas temporadas.  O que se vê com frequência é que algumas séries acabam ficando meio perdidas de tantas temporadas que são feitas, justamente obedecendo essa lógica. Mas até aí muita gente já ganhou muito dinheiro, então tá tudo certo.

>>> Quais as atuais formas de financiar uma produção televisiva?

Existem várias formas, mas, no Brasil, existem principalmente duas. Uma é através dos mecanismos de fomento, onde o estado participa como principal agente viabilizador. Os mecanismos de fomento se dividem em dois: diretos e indiretos. Mecanismos de fomento direto se dão através de editais públicos, onde os produtores podem inscrever os seus projetos e, caso sejam selecionados, recebem recursos para a produção. No fomento direto, um dos principais mecanismos é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que disponibiliza diversas linhas de financiamento para produção televisiva. O fomento indireto se dá através de captação de recursos por meio de renúncia fiscal, ou seja, uma empresa ou canal de televisão, destina um percentual do que pagaria de impostos para um determinado projeto audiovisual. Esse é o caso de patrocínio de projetos por grandes empresas como a Petrobrás, BNDES e alguns canais como HBO, por exemplo.

Existe também o financiamento direto do canal, sem qualquer mecanismo de fomento. Nesse caso, o canal é quem banca a produção através do seu modelo de negócio. Há também modelos híbridos, onde entra parte de dinheiro de financiamento direto do canal, parte por meio de mecanismo de incentivo. 

>>> Poderia explicar aos nossos leitores o que é um piloto e a importância dele na venda de uma série?

O piloto é o primeiro episódio de uma série. A partir dele o canal avalia se vale a pena investir no outros episódios ou não. O piloto pode ser feito com recursos do próprio produtor, que faz um aposta no projeto ou pode ser bancado pelo canal. É muito comum produtores investirem no piloto por conta própria para tentar vender depois o restante da série. O problema é que, se não ficar bom, o piloto pode servir mais como um material de desvenda do que de venda. É difícil fazer conteúdo com qualidade com pouco ou mesmo sem recurso, mas não é impossível. O produtor precisa avaliar bem se vale a pena investir em um piloto, porque não existe uma segunda primeira impressão. Particularmente, prefiro investir em um teaser ou promo. O custo é menor e já possibilita o canal ter uma boa ideia da pegada do projeto. 

>>> Durante seu workshop aqui no CTAv, você falou em produzir com pequenos orçamentos. Na sua estimativa, qual seria um valor mínimo para começar um piloto? Quais os elementos essenciais para fazer uma produção de qualidade?

Não acredito que exista um valor mínimo, pois muita coisa boa pode ser feita mesmo sem dinheiro e muita coisa ruim é feita com muita grana. Principalmente quando é um projeto ainda, não aconselho a um produtor iniciante fazer um piloto diretamente, pois, como disse, o piloto pode acabar prejudicando mais o projeto do que ajudando, além de ser mais oneroso. Agora, um teaser ou promo curto de 2/ 3 minutos, acredito que seja mais prático, tanto para quem produz, já que o esforço e os recursos ficam mais concentrados, quanto para quem avalia, já que o tomador de decisão pode avaliar bem o conceito e outros aspectos da produção. O principal é ter um conceito sólido e bem executado tecnicamente. Para isso é necessário muito mais talento, conhecimento e esforço do que dinheiro propriamente. 

Turma do workshop Produção para Televisão com baixo orçamento, ministrado por Adriano Espínola Filho. Foto: Divulgação CTAv 2019.

>>> Para atrair a atenção de um canal ou plataforma é necessário apenas o envio de uma boa ideia, seja ela expressa através de uma sinopse, argumento ou roteiro, ou o envio de um projeto mais robusto, com cronograma, orçamento, plano de negócios, equipe, etc. Como você traduz a atual demanda do mercado acerca dessa questão? A formatação, o dimensionamento do projeto, suporte de uma produtora são decisivos na hora da apresentação ou não?

O mercado está ficando cada vez mais competitivo, então ter uma boa ideia é apenas o início da brincadeira. Quanto mais elementos o projeto poder dispor que o destaque dos demais, melhor. Se o projeto já conta com a participação de um ator famoso, um baita roteiro ou um promo muito bem feito, ele vai ser mais competitivo que um projeto que não tenha nada disso. Um projeto audiovisual é avaliado não apenas pelo seu valor artístico, mas também pela sua viabilidade prática, levando em conta as oportunidades e riscos. Quanto mais se reduzirem os riscos e mais se aumentarem as oportunidades, maiores as chances do projeto ser aprovado pelo canal.

>>> Poderia sugerir um check-list para quem está montando um projeto com intenção de apresentá-lo a um canal/plataforma?

  1. Muita vontade. O processo é longo e desgastante, então se não tiver muita vontade, nem comece.
  2. Paciência. Saiba que o entre o desenvolvimento de um projeto e a efetiva aprovação podem demorar anos, em um processo de constante aperfeiçoamento, adaptação e incorporação de novos elementos. 
  3. Resiliência. Prepare-se para ouvir muitos nãos. No começo é mais dolorido ouvir as críticas, mas com o tempo aprende-se a lidar, incorporando os bons conselhos e descartando os maus, sem perder o ânimo. 
  4. Estude. Procure saber como estão sendo apresentados os projetos no mercado, converse com pessoas do meio e principalmente conheça os canais. Geralmente eles tem algum tipo de formato ou caminho para apresentação de projetos.

Claro que sinopse, logline, argumento, roteiro e promo são importantes, mas acredito que cumprir os requisitos acima vêm primeiro. 

>>> E o que os canais/plataformas estão procurando? Como saber se seu conteúdo se encaixa no perfil de cada um?

Os canais procuram de tudo, pois o audiovisual, assim como as artes em geral, estão sempre abertas ao novo e existe todo tipo de canal. É uma indústria extremamente dinâmica e com alta demanda de conteúdo. Agora, tudo não quer dizer qualquer coisa. Cada canal tem seu perfil e saber qual é o perfil do canal não é tão complicado. É só assistí-lo e ver que tipo de programa são transmitidos. É mais voltado para documentário sobre natureza, estilo de vida, arte, aventura ou é mais voltado pra ficção do tipo comédia, drama, cult, terror? Que tipo de público?  Homem, mulher, jovem, criança? Classe A, B ou C? Isso precisa ser mapeado e faz parte do dever de casa de cada produtor. O seu projeto muito provavelmente vai se encaixar em determinados canais. Procure então adaptar o seu projeto ao canal no que for possível. Isso tudo aumentará as chances de fechar negócio. 

>>> Quais os seus aconselhamentos para quem está começando e busca formas de divulgar seu projeto?

O mais importante acho que é acreditar. Se dispor a desenvolver um projeto completo, com sinopses, argumento, roteiro, gravar um promo ou piloto é uma passo muito importante. Na medida que o produtor vai se envolvendo, ele vai achando a melhor maneira, seja pela internet, diretamente com canais, nos editais, nos eventos, as opções são muitas. É fundamental estudar o mercado, identificar que tipo de projeto ele quer fazer e quais os canais adequados para aquele tipo de projeto. Outra coisa importante para quem quer trilhar o caminho do audiovisual é não ter apenas um projeto, mas idealmente uma cartela. Eu mesmo tenho vários projetos, tanto de ficção, quanto documentário e sei que alguns podem vingar, outros não. Depender só de um projeto é sempre complicado.

>>> Já que falamos algumas vezes sobre eles, poderia apresentar os conceitos de teaser, promo e monstro aos nossos leitores?

Esses conceitos não são muito rígidos, mas o teaser vem do verbo inglês to tease, que significa provocar. É uma peça de divulgação que não explica muito a história, o objetivo é mais despertar a curiosidade do espectador para querer saber mais sobre o projeto do que explicar de maneira clara do que se trata. Já a promo é uma peça de divulgação onde se explica melhor o projeto, do que se trata, como vai ser feito para que o espectador, ou tomador de decisão, tenha um noção mais precisa do produto. Monstro é quando se faz uma promo ou teaser usando material de outras séries, sendo mais um trabalho de edição do que produção propriamente de conteúdo. É a maneira mais barata, porém para quem está começando acho interessante filmar alguma coisa para poder mostrar um pouco do trabalho.

>>> E, para terminar a nossa entrevista, tem alguma pergunta que você sempre quis que fizessem sobre produção televisiva e nunca te fizeram? 

Não a mim diretamente, mas acho que as pessoas devem sempre perguntar a si mesmas algumas coisas ao investir seu tempo ou recursos em um projeto audiovisual. O que realmente quero dizer com esse projeto? O projeto é relevante pra mim e pro mundo de alguma forma? Estou preparado para o risco? Para eventuais críticas? Parece simples, mas vejo muitos projetos onde os produtores parecem não se terem feito essas perguntas. São respostas que cada um vai ter que encontrar por si. Não acho que a pessoa precise ter todas as repostas de cara, pois existe um processo de amadurecimento em cada projeto, porém quanto mais ela refletir sobre essas questões, mais preparada estará.

<<< Curtiram a entrevista do Adriano? No próximo mês falaremos de atuação no audiovisual. Se quiserem sugerir perguntas ou assuntos, inscreva-se em nosso mailling e fale com com a gente>>>

Confira abaixo o teaser do primeiro piloto de Adriano:

“Berenice”, (Adriano Espínola Filho, 2013)