O Espaço de Especialista abre o ano de 2020 tratando de um assunto que tem relação de longa data com o CTAv: A animação. Para tratar do tema, convidamos Walkir Fernandes.

Designer gráfico e codiretor do curta em animação Apneia, mixado aqui no CTAv em 2019, Walkir já atuou em produções de animação para longa-metragens, séries e curta-metragens premiados no Brasil e exterior. Destaque para os prêmios recebidos de Melhor Curta-metragem no 47º Festival de Cinema de Gramado, Melhor Curta-metragem segundo a crítica carioca no 27º Animamundi, Prêmio Canal Brasil no 23º Cine-PE, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora no 42º Festival Guarnicê, AnimaTV, 33º Eko Film Festival, Green Nation Fest e duas indicações no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Confira abaixo a entrevista que ele nos concedeu sobre o assunto e conheça um pouco mais desse universo fascinante de criação audiovisual!

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Walkir Ribeiro. Foto: Divulgação.

>>> Olá, Walkir! Gostaria de começar te agradecendo por aceitar participar dessa entrevista e te perguntar como foi que surgiu o seu interesse pelo universo da animação. 

Obrigado pelo espaço que vocês estão abrindo, espero estar contribuindo para quem se interessa por animação. Como a maioria dos profissionais dessa área, animação é uma paixão de infância. Eu tinha muita vontade de fazer animação, apesar de naquela época (anos 80) parecer um sonho muito distante. Mas foi de desenhar os personagens que gostava de assistir, como Pantera Cor-de-Rosa, Tom & Jerry e Pica Pau, que eram os mais comuns naquela época, que nasceu essa vontade.
 
>>> Qual foi o seu primeiro trabalho na área e como narraria essa experiência?
Bem, eu comecei fazendo animação nos cantos das folhas dos meus cadernos quando criança, até levar alguns puxões de orelha dos professores. Mais tarde, ainda no ensino médio, eu e mais dois colegas fizemos, por conta própria, uma adaptação para animação do conto “Venha Ver o Pôr-do-Sol”, de Lygia Fagundes Telles. Fiz os desenhos no Paintbrush e meu colega editou em um programa bem básico de edição que existia na época, final dos anos 90. Mas foi somente na faculdade, no início dos anos 2000 que tive contato com livros técnicos sobre animação, que me ajudaram a fazer meu primeiro curta-metragem, chamado “Josemildo”. Aprendi muito fazendo esse filme, desde técnicas e princípios da animação, narrativa, ritmo, etc. 
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>>> Quais as técnicas de animar existentes hoje no mercado? Pode explicar um pouco sobre cada uma para os nossos leitores?
A animação é uma brincadeira muito antiga e, ao longo da história, muitos brinquedos ópticos foram inventados com essa vontade que o ser humano tem de criar a ilusão do movimento. Selecionei algumas técnicas, as mais conhecidas.
Flip Book: Esse é um dos que eu mais gostava quando criança. São desenhos feitos em cada página de um bloquinho de papel, criando uma sequência que, ao serem rapidamente folheadas, tem-se a ilusão do movimento.
Animação de recorte: Como o nome já sugere, é uma animação feita com recortes de papel, cartolina, tecido, etc. O animador faz uma foto para cada variação de movimento das peças recortadas, criando uma sequência de imagens que formarão a animação.
Stop Motion: Popularmente conhecido como “animação de massinha”, mas pode ser feito com diversos materiais como areia, objetos, bonecos, etc. A ilusão do movimento é criada quando fotografamos cada variação de posição dos objetos em uma sequência organizada de imagens.
Pixelation: Uma variação do “stop motion”, onde o objeto animado são pessoas reais.
Animação Tradicional: Com uma mesa de luz e folhas translúcidas e acetato, o animador produz de 12 a 24 desenhos para criar cada segundo de animação.
Exemplo:
Animação cut-digital: Parecida com a animação de recorte tradicional, porém é feita digitalmente utilizando programas de computador, como o Toonboom Harmony, Adobe Animate e Adobe After FX. É uma das técnicas mais utilizadas atualmente, principalmente em séries de TV, por permitir que uma animador produza uma quantidade razoável de segundos de animação diariamente.

Animação 3D: Animação toda produzida em computador. O artista modela os personagens, cenários, produz texturas e iluminação e anima no computador, dentro de uma ambiente virtual. É muito utilizado em publicidade e longa-metragens.

 
>>> Que potencialidades a realidade virtual traz à animação?
Fora alguns testes simples, não tive muita experiência profissional com realidade virtual. Mas as potencialidades são infinitas para a animação, desde jogos eletrônicos e filmes até o uso na educação. Acho incrível a possibilidade de estar num ambiente virtual simulando as profundezas do oceano, com toda a riqueza de criaturas incríveis nadando ao seu redor; pode estar visitando outros planetas para entender como é atmosfera deste lugar; ou viajar no tempo e entender melhor como vivia a civilização Inca aqui na América do Sul, antes da colonização dos Europeus.
 

Poster de Apneia, filme de Carol Sakura e Walkir Fernandes.

>>> Muita gente assiste Apneia e não imagina o tempo que leva para chegar a esse resultado. Quanto tempo demorou só para animar esse curta?

Foram ao todo 18 meses de muito trabalho. Desde a pré-produção, que envolve criação das personagens, storyboard e definição de estilo de cenários, passando pela produção, onde são feitos todos os cenários e animação, propriamente dita, até chegar na pós-produção, que abraça efeitos visuais, tratamento de cor, trilha sonora, desenho de som e edição final.
 
>>> Que profissionais atuam na produção de uma animação? Poderia descrever suas funções?
Depende muito do tipo de produção, se é um curta-metragem, se é um longa-metragem, se é uma série para TV ou um material publicitário. Também depende da técnica utilizada. Mas, a grosso modo, podemos dividir em algumas funções que são comuns em todas as produções: Roteirista: É quem escreve a história. Diretor: profissional com conhecimentos técnicos e artísticos e que domina linguagem cinematográfica. É quem toma as decisões estéticas para contar aquela história. Diretor de Arte: trabalha ao lado da direção. Pessoa com muito conhecimento artístico e que define a estética do filme. Diretor de Animação: define o estilo de animação que será utilizado no filme. Storyboarder: Profissional que transpõe a história da linguagem textual para os desenhos, para representar cada uma das cenas e planos que compõe o filme. Animador: Profissional que efetivamente põe a mão massa para gerar os quadros da animação. Cenarista: profissional responsável por criar os cenários do filme. Músico: É quem faz a trilha sonora do filme e, muitas vezes, também produz o desenho de som. Editor: Profissional que agrupa todas as cenas e planos animados individualmente e monta o filme.
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Foto: Divulgação Apneia

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>>> Qual a importância que você atribui à música e à dublagem em uma animação? 
A música (e a ausência dela) em um filme é o que muitas vezes guia as sensações do espectador. Ela dá o tom se a cena é mais tensa ou leve ou se é para rirmos ou chorarmos. 
Já a dublagem merece uma definição melhor. Normalmente as pessoas dão o nome de dublagem para qualquer tipo de voz em um filme de animação. Tecnicamente, definimos como dublagem as vozes que são gravadas usando como referência a animação pronta. É o que acontece quando assistimos Bob Esponja em português, por exemplo: o ator faz suas falas baseadas no movimento labial e gestual da personagem. Mas, no caso de uma produção de animação, utilizamos o que chamamos de “voz original”. É quando a pessoa grava o texto do roteiro, interpretando a personagem, mas sem se basear na animação pronta, pois a animação será feita em cima da voz original gravada pelo ator. Nesse sentido, a importância é fundamental. Uma boa voz original é crucial para guiar o animador para fazer uma boa cena. Em suma, um áudio bem produzido, é essencial para se ter um bom filme. 
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>>> Existe uma ideia de que a animação é mais voltada para o público infantil, mas cada vez mais vemos animações tratando de temas sérios e voltadas para adultos, Apneia, por exemplo. Quais as possibilidades atuais desse mercado? 
Animação ganhou, ao longo do tempo, a alcunha de gênero cinematográfico. Nós, profissionais da animação, entendemos a animação não como gênero, mas sim como técnica cinematográfica. Explico porque: você pode produzir um drama na técnica de animação, pode produzir um documentário, um filme policial ou mesmo, um filme infantil na técnica de animação. Esse paradigma de que a animação é filme infantil ganhou forças com a grande produção que a Disney teve a partir dos anos 30. Mas antes disso, já existiam muitas animações voltadas para o público adulto. Por exemplo, é de 1918 o filme chamado The sinking of the Lusitania, de Winsor McCay, o primeiro documentário animado da história, que retrata o naufrágio de um cruzeiro britânico bombardeado por um submarino alemão.
Para quem se interessa por esse lado menos infantilizado nas produções de animação, sugiro frequentar festivais de animação, como o Anima Mundi, por exemplo. Ou mesmo festivais e mostras de curta-metragens. São ambientes muito bons para mergulhar nessa arte e entrar em contato com diversos temas interessantes.
Em termos de mercado, há muitas possibilidades de se trabalhar temáticas mais sérias. Desde abordar algum assunto histórico na educação, como por exemplo, mostrar como foi alguma batalha antiga, como viviam dinossauros. É o que o TED-Ed faz por exemplo, mostrar coisas sérias e interessantes através da animação.
 
>>>​ Aos interessados em ingressar nessa área, por onde aconselharia começar?
Diferente das gerações anteriores, onde tínhamos que ser animadores autodidatas por conta das dificuldades de se encontrar cursos e livros sobre animação, hoje em dia é muito fácil encontrar tutoriais, video-aulas e dicas de animadores do mundo todo. E as ferramentas ficaram mais acessíveis, também. Mas acredito que um dos conselhos mais valiosos, além de buscar conhecimento, é se manter firme no propósito e não desistir. Trabalhar com animação pode ser uma atividade prazerosa, mas não é fácil. Como qualquer atividade, é preciso muitas horas de dedicação para adquirir experiência suficiente para seguir adiante. Colocar pequenas metas também ajuda: evite projetos épicos e megalomaníacos, comece com testes de animação, estudando os princípios básicos da animação. Depois siga para um curta-metragem, não mais que trinta segundos à um minuto de animação. Ter o prazer de iniciar um projeto e encerrá-lo é muito valioso. Já vai ser um bom desafio e, se ficar legal, pode até arriscar inscrever em alguns festivais.
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Essa foi a entrevista de janeiro, no mês que vem falaremos sobre um assunto que está bastante em alta: realidade virtual no audiovisual. Tem alguma pergunta que gostaria de fazer sobre o tema? Envie para a gente!
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